O pólo

A filosofia surge, na Grécia, em meio a um fecundo diálogo e uma calorosa disputa entre valores e formas de conhecimento. Diálogo e disputa que são entretidos com as formas tradicionais de educar e conhecer, sobretudo a poesia épica, mas também a poesia dos legisladores, a lírica, a órfica, a trágica, as tradições oraculares e todas as outras formas de expressão e de linguagem coetâneas. Os primeiros filósofos nascem diretamente destas tradições poéticas, e muitas vezes mantêm elementos formais e também conteúdos idênticos ou análogos aos desta origem. O que os agrupa, segundo uma determinação clássica oriunda da história da filosofia aristotélica, é o interesse acerca da Natureza (Physis), por isso foram chamados pelo Filósofo de “physikói” e “physiologoi” – físicos e fisiólogos.
Esta pesquisa sobre as origens da Filosofia ocidental em suas investigações sobre a natureza (physis) não tem uma perspectiva histórico-filosófica limitada às teorias, aos fatos, personagens e escolas, mas visa refletir sobre as transformações operadas no plano da linguagem, para propiciar os seus modos discursivos e cognitivos originais. Por isso, a visada se abre não para as doutrinas ou as proximidades pessoais (no tempo e no espaço), mas antes para as formas, os gêneros e as estratégias de discurso. A compreensão de que a filosofia se origina em meio a experiências sapienciais, pelas formas tradicionais de poesia e pelas novas formas que surgem dos séculos sexto ao quarto antes de Cristo determina uma atenção especial para os gêneros literários com suas estratégias, retóricas e poéticas de expressão científica. Por isso, os primeiros filósofos, que são igualmente poetas, podem ser demarcados por gêneros que habitualmente demarcam o campo das letras: filósofos épicos, filósofos trágicos, filósofos líricos (órficos), filósofos místicos (pitagóricos), filósofos sentenciais (leis e oráculos) e mesmo filósofos dialéticos (como os sofistas) vistos igualmente por suas estratégias retóricas e poéticas; ainda que o seu tema e objeto de investigação sejam, para eles não exatamente como para nós, de cunho científico.
Tal visada permite ao mesmo tempo sentir a repercussão das diversas influências discursivas na filosofia: epopéias cosmogônicas, discursos dramáticos, enigmas oraculares, disputas forenses; como também permite apreender a originalidade das novas experiências filosóficas: o poder do argumento, a universalização conceitual, a sintaxe categorial etc. na instauração dos discursos canônicos da ciência ocidental.

 
 
 
 
 
PEC - Pólo de Estudos Clássicos
polo.de.estudos.classicos@gmail.com
21 2224.6379
 
Laboratórios
s
Poaera
Logo Noesis